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O que levou os croatas às ruas? O protesto em Zagreb e a indignação com o caso de Gospić

Manifestação que levou a questão dos resíduos de Gospić às ruas da capital expôs uma insatisfação com a demora das respostas, a fiscalização ambiental e a responsabilidade das instituições.

Para entender o que aconteceu em Zagreb no último dia 5 de setembro, é preciso olhar para o sentimento que levou milhares de pessoas às ruas.

Naquele sábado, participantes chegaram à capital croata vindos da Lika, da Dalmácia, da Banovina e de outras regiões do país. No centro de Zagreb, cartazes pediam a retirada dos resíduos acumulados em Gospić. Os manifestantes também gritavam contra o governo. A cena revelava uma insatisfação que vinha surgindo ao longo do tempo.

O caso de Gospić havia se transformado em uma discussão sobre fiscalização, transparência, responsabilidade e confiança nas instituições públicas. A demora para encontrar uma solução aumentou a pressão sobre o governo e ajudou a transformar uma questão regional em uma pauta nacional.

Quando um problema local chega à capital

A manifestação recebeu o nome de “Hodaj za Liku, hodaj za Hrvatsku”, que significa “Caminhe por Lika, caminhe pela Croácia”.

O ato foi organizado pela iniciativa cívica Gospić je naš dom, com apoio da organização ambiental Lička ekološka akcija.

O nome escolhido para a manifestação já indicava a dimensão que o movimento pretendia alcançar.

Gospić fica na região da Lika, distante do centro político croata. A decisão de levar a mobilização para Zagreb colocou o governo nacional no centro da cobrança.

Participantes chegaram de diferentes partes da Croácia. Representantes de cerca de 15 iniciativas cívicas e organizações ambientais falaram durante o ato.

Nas ruas, as mensagens eram diretas. Cartazes traziam frases como “Dosta je”, que significa “Basta”, e “Miči to!”, “Tirem isso!”. Também foram registrados gritos contra o HDZ, partido do primeiro-ministro Andrej Plenković.

A dimensão política apareceu de forma explícita durante a manifestação.

Ao mesmo tempo, a mobilização reuniu diferentes organizações e grupos da sociedade civil em torno de uma preocupação comum: a necessidade de uma resposta concreta para o problema de Gospić.

O lixo como símbolo de uma frustração maior

O caso envolve diferentes tipos e volumes de resíduos. As fontes utilizadas pela imprensa croata apresentam números distintos porque tratam de categorias diferentes.

As estimativas mencionam dezenas de milhares de toneladas no passivo geral, resíduos enterrados, materiais misturados ao solo e entulho, resíduos armazenados em edifícios e aproximadamente 650 toneladas de material não perigoso armazenado em grandes sacos.

Esses números não devem ser somados porque representam diferentes partes do problema.

A dimensão do passivo contribuiu para transformar o caso em um símbolo da preocupação com a fiscalização ambiental na Croácia.

O episódio também ganhou uma dimensão internacional. Investigações apontaram para a circulação transfronteiriça de resíduos, incluindo materiais provenientes principalmente da Itália, além de remessas da Eslovênia e da Alemanha.

Nesse contexto, ganhou força a expressão de que a Croácia poderia se tornar uma “lixeira da Europa”.

A frase sintetizou uma preocupação presente no debate público: a possibilidade de o país receber resíduos provenientes de outros países sem mecanismos suficientes para impedir o descarte irregular.

A discussão sobre Gospić passou a envolver também a posição da Croácia dentro da União Europeia e a capacidade das instituições nacionais de controlar uma cadeia de resíduos que atravessa fronteiras.

A preocupação ambiental

O debate público também envolveu questões relacionadas ao solo e às águas subterrâneas.

A Faktograf citou análises investigativas que apontaram microplásticos e metais no solo e PFAS em águas subterrâneas.

O Instituto Geológico Croata apresentou outra informação importante. Segundo o instituto, a água distribuída pela rede pública era própria para consumo e não havia uma rota hidrogeológica plausível entre o depósito e as captações públicas.

As duas informações tratam de questões diferentes.

A segurança da água distribuída à população não elimina a necessidade de investigar possíveis impactos sobre o solo e as águas subterrâneas. O próprio instituto recomendou monitoramento mais frequente e uma remediação rápida.

Para a população, a existência de resíduos perigosos próximos a áreas habitadas já era suficiente para alimentar a preocupação.

A pergunta passou a envolver também a responsabilidade pela situação.

Quem deveria ter identificado o problema antes?

Quem deveria fiscalizar?

Por que a solução demorou?

E quem pagaria pela recuperação da área?

Foto: REUTERS Internacional. Maniestantes na praça principal de Zagreb, Croácia.

A sensação de que a resposta demorou

A cronologia ajuda a explicar a pressão que chegou às ruas de Zagreb.

A investigação criminal relacionada ao caso já estava em andamento. Licitações para diferentes etapas da remoção haviam sido abertas. O governo também havia anunciado a intenção de retirar grandes volumes de resíduos enterrados e enviar parte do material para tratamento fora da Croácia.

A população, porém, continuava esperando uma solução concreta.

Essa diferença entre anúncios e resultados tornou-se um dos pontos centrais da mobilização.

Os organizadores cobraram um plano vinculante, prazos claros, monitoramento independente, responsabilização e aplicação do princípio de que o poluidor deveria pagar.

A cobrança era objetiva.

A população queria saber quando os resíduos seriam retirados, quem seria responsável pelo processo, como a operação seria fiscalizada e quais seriam os mecanismos para acompanhar os resultados.

Zagreb como palco da cobrança

Levar a manifestação para Zagreb teve um significado importante.

A capital concentra o governo, o Parlamento e as principais instituições nacionais. Ao ocupar o centro da cidade, os manifestantes colocaram o caso de Gospić diante das autoridades responsáveis pela política ambiental e pela fiscalização nacional.

A mobilização também mostrou uma capacidade de articulação entre diferentes grupos da sociedade civil.

Isso não significa que toda a sociedade croata compartilhasse a mesma interpretação sobre o protesto.

A cobertura da imprensa apresentou diferentes posições. Em 6 de setembro, a HRT publicou declarações de pessoas que defenderam que a manifestação deveria ter ocorrido em Gospić e classificaram o ato como uma “jogada ecológico-política”.

O episódio também teve críticas políticas.

Ainda assim, a mobilização demonstrou que o caso havia ultrapassado os limites de Gospić e alcançado uma parcela mais ampla da sociedade croata.

As respostas depois da manifestação

A pressão das ruas foi seguida por novos anúncios do governo.

Em 10 de setembro, Holcim Hrvatska e NEXE foram designadas para remover, transportar e tratar aproximadamente 650 toneladas de resíduos não perigosos armazenados em cerca de 300 grandes sacos.

O contrato tinha teto de €357.500 sem IVA e prazo previsto de 45 dias.

Nos dias seguintes, houve vistoria no local, preparação de amostras independentes e seleção da empresa Kostak para uma cobertura impermeável provisória do material enterrado.

O governo também anunciou a criação de um Conselho Científico, videomonitoramento, rastreamento por GPS dos veículos utilizados no transporte, controles mais frequentes e propostas de endurecimento das responsabilidades.

A resposta institucional avançou.

A execução ainda estava no início.

Em 17 de setembro, a ministra Marija Vučković confirmou que o transporte das 650 toneladas ainda não havia começado.

Essa informação é importante para entender o estado do caso naquele momento. Até o corte da apuração, havia decisões administrativas, contratos e preparativos. A remoção integral dos resíduos ainda não havia acontecido.

O sentimento nas ruas

O protesto de Zagreb mostrou uma combinação de indignação, preocupação ambiental e cobrança institucional.

A população queria uma solução para Gospić e queria acompanhar essa solução de maneira transparente.

A manifestação também expressou uma preocupação mais ampla com a capacidade do Estado de fiscalizar atividades envolvendo resíduos e impedir que comunidades locais carreguem durante anos as consequências de problemas ambientais.

Para quem acompanhava o caso na Croácia, Gospić passou a representar uma pergunta sobre responsabilidade pública.

Quando uma comunidade enfrenta um problema ambiental dessa dimensão, quem deve agir?

Qual é o prazo aceitável para uma resposta?

Quanto tempo pode existir entre uma promessa oficial e uma solução efetivamente executada?

Essas perguntas ajudam a explicar por que pessoas de diferentes regiões viajaram até Zagreb.

Uma questão que chegou ao coração da Croácia

Para o brasileiro que acompanha a Croácia de longe, a manifestação pode parecer uma história distante sobre resíduos industriais.

Dentro do país, o episódio ganhou um significado mais amplo.

Gospić tornou-se uma referência para discussões sobre fiscalização ambiental, circulação internacional de resíduos, transparência pública e responsabilidade política.

A manifestação colocou essas questões no centro de Zagreb e mostrou que havia uma parcela da sociedade disposta a pressionar o governo por respostas mais rápidas e verificáveis.

O caso também deixou uma questão em aberto.

O governo conseguiu transformar a pressão das ruas em medidas administrativas. O desafio seguinte seria transformar essas medidas em resultados visíveis no local.

No dia 5 de setembro, milhares de pessoas caminharam por Zagreb para pedir que o problema de Gospić fosse resolvido.

A força daquela manifestação estava justamente na simplicidade da mensagem.

O problema existe. A população conhece o problema. Agora ela quer saber quando a solução vai começar.

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