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O paradoxo da teimosia: burros dálmatas e seus ensinamentos

Que a Croácia, no verão, é destino certo para quem procura águas cristalinas e tranquilas,
todo mundo sabe. O que pouca gente comenta é que, entre julho e agosto, o país também se
transforma numa espécie de campeonato informal de neuroses logísticas: moradores e turistas
disputam as melhores acomodações, os restaurantes mais concorridos e, principalmente,
alguns centímetros de areia para estender a toalha. É o cenário perfeito para lembrarmos de
Schopenhauer, que dizia que a vida oscila entre o tédio e o sofrimento, especialmente quando
o sofrimento envolve carregar uma cadeira de praia por dois quilômetros sob o sol dálmata.
Entretanto, para além desse caos litorâneo, existe uma tradição que subverte qualquer lógica
de produtividade: as corridas de burros.

A história dessas competições começou em 1952, em Tribunj, quando um grupo de
estudantes decidiu que a nostalgia rural era o ingrediente perfeito para um espetáculo de
entretenimento. O tovar, nome dado ao burro na região, é o centro dessa celebração e,
possivelmente, o único habitante da costa que realmente compreendeu o conceito de ócio.
Antes da chegada da mecanização e das estradas modernas, ele era o motor silencioso da
Dalmácia, transportando cargas por terrenos onde nem a tecnologia nem a força dos cavalos
ousavam chegar. Hoje, ele atua como um mestre da ironia, lembrando-nos de que a pressa é
uma invenção humana da qual ele não pretende participar.

Tribunj não é o único palco para essa resistência de quatro patas. Em Sali, na ilha de Dugi (Dugi
Otok), a corrida integra o festival Saljske užance, marcado pela Tovareća mužika, uma
apresentação musical de cornetas e tambores que parece projetada para testar a resiliência dos
nossos tímpanos. Tisno, por sua vez, ampliou o alcance internacional da celebração. Com o
tempo, o evento também passou a contribuir para a conservação do santuário de burros na
ilha de Logorun, buscando equilibrar o entusiasmo da festa com o compromisso de proteger o
futuro da espécie.

Essa arquitetura de pertencimento muitas vezes exige que os participantes tenham nascido na
cidade ou possuam vínculos familiares profundos. Além disso, o uso de trajes tradicionais
reforça o caráter cultural do evento, celebrando a memória de uma comunidade que se recusa
a esquecer quem a carregou nas costas, literalmente. Só fica o gosto agridoce de perceber
que, às vezes, honrar quem nos carregou exige um esforço de empatia que a agitação do
momento nem sempre consegue alcançar.

A prova, naturalmente, não é conhecida pela velocidade. O burro pode parar na linha de
largada, decidir que prefere caminhar na direção contrária ou simplesmente ignorar o jóquei
com uma indiferença que faria qualquer executivo apressado entrar em colapso existencial.
Sua teimosia não é um problema para o espetáculo: ela é o próprio espetáculo. É o momento
em que a natureza nos recorda, com um humor fino e implacável, que os nossos planos de
eficiência são meras ilusões diante de um animal que decidiu que o “agora” é muito mais
interessante do que a linha de chegada.

É justamente aqui, contudo, que o encanto esbarra no paradoxo mais incômodo da nossa
relação com o passado. Por um lado, o discurso oficial celebra o evento como um ato de
preservação e gratidão a um companheiro histórico de trabalho. Por outro, surge o questionamento sobre o reverso dessa festa: o animal, acostumado ao seu próprio ritmo, vê-se
no centro de um alvoroço que parece ser o oposto de sua natureza silenciosa. É uma das
ironias da nossa forma de lembrar. Muitas vezes, para manter viva a memória de quem nos
serviu, nós o colocamos em uma vitrine que reflete mais o nosso desejo de celebração do que
o conforto de quem é celebrado.

Aí reside o dilema que nos desafia. O mesmo santuário que protege os burros da extinção na
região depende, em parte, de um evento que coloca essa relação à prova. É o paradoxo de
precisar da visibilidade do espetáculo para garantir a sobrevivência silenciosa, uma
negociação complexa entre a herança que queremos manter e a sensibilidade que estamos
aprendendo a cultivar. Queremos honrar o passado, mas o fazemos através de uma lente que
ainda prioriza o nosso olhar, muitas vezes esquecendo de perguntar se o homenageado
gostaria de estar ali.

No fim, a corrida não é sobre quem chega primeiro. É sobre observar as nossas próprias
contradições culturais. Reconhecer a dignidade da lentidão deveria nos levar a refletir se a
tradição e o respeito podem caminhar juntos sem que um precise atropelar o outro. Afinal,
como sugeriria a boa poesia, o que vemos não é o que vemos, mas o que somos. E ao ver um
burro parado no meio da pista, ignorando o mundo, talvez vejamos tanto a coragem de ser
quem se é quanto o convite para sermos humanos mais atentos ao que acontece para além do
nosso próprio umbigo.

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