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Idemo na kavu? Café e ócio sagrado em Zagreb

Em Zagreb, a pressa tem duas personalidades. No trânsito, ela aparece inteira. Há
carros que avançam como se o próximo semáforo escondesse uma revelação,
buzinas que defendem causas urgentes e motoristas dispostos a disputar com o
relógio uma vitória de poucos segundos. Mas basta atravessar a rua e entrar em um
café para que essa energia se dissolva. A lógica do trânsito não atravessa a porta
do café.

Zagreb é a capital da Croácia e concentra empresas, serviços, empregos e
oportunidades. É uma cidade que movimenta a economia do país e conhece bem a
linguagem dos prazos. Ainda assim, diante de uma xícara, parece cultivar outra
ideia de tempo. Zagreb tem dois regimes temporais. Um acelera entre carros e
semáforos. O outro se instala à mesa. O primeiro quer chegar. O segundo não vê
motivo para isso.

Foi preciso morar ali para compreender o alcance do idemo na kavu, “vamos tomar
um café?”. A frase raramente diz respeito apenas à bebida. É um convite para
conversar, observar a rua, encontrar conhecidos e permitir que algumas horas
passem sem a obrigação de justificar a própria existência. Em Zagreb, o ócio não
parece um acidente entre dois compromissos. Parece um compromisso com o ócio.

Sem comida para acelerar o consumo, sobra a conversa. Um croata pode
permanecer duas ou três horas diante da mesma xícara, acompanhando a vida
acontecer sem culpa. Em plena terça-feira à tarde, os cafés continuam cheios. Há
algo de etnográfico nessa cena: cadeiras ocupadas, mesas compartilhadas,
pessoas observando e sendo observadas.


A estadunidense Kimberly Price, minha amiga e cúmplice de várias dessas
imersões ao redor de uma xícara em Zagreb, nota como o contraste é gritante para
quem vem de fora: “Quando me mudei para a Croácia, a cultura do café realmente
me surpreendeu. Nos Estados Unidos, o café costuma ser comprado para levar ou
pedido em um drive-thru. Mas aqui ele não serve apenas para resolver a
necessidade de cafeína. É uma atividade social que pode durar horas.”

A regra é tão levada a sério que até as mentes mais pragmáticas concordam. Petar
Grujoski, meu colega de trabalho, do departamento de TI e natural de Zagreb,
resume a lógica de maneira irrefutável: “Tomar café na Croácia é mais como sair
para passar um tempo juntos. O café não é o mais importante, a companhia é. Você
pode beber um único café durante horas, mas o objetivo é sair e conversar com os
amigos.”

É essa companhia que transforma o café em uma cartografia do pertencimento,
exigindo filtros que vão além da mera conveniência. Para Sabina Ljubičić, minha
colega de trabalho natural de Pula, o ritual pertence a uma esfera de intimidade. “Eu
realmente adoro tomar café, praticamente a qualquer hora do dia. Não é apenas
café, é um ritual, um prazer”, ela conta, deixando claro como os laços ditam a regra.
“Dificilmente sairia para tomar café com alguém com quem tenho apenas uma
relação superficial. É uma experiência muito mais íntima.”

Para quem vive fora do país de origem, esses lugares ganham uma camada
adicional. O croata lembra que somos estrangeiros, enquanto a mesa do café
oferece um território comum. Ali, tenho compartilhado conversas sobre a vida
expatriada e as estratégias para decifrar uma língua feita para testar a nossa
humildade. Há pessoas fiéis à mesma mesa, no mesmo estabelecimento, no
mesmo horário. Conheço quem se senta rigorosamente no café Sherlock, em
Trešnjevka, todos os sábados às dez da manhã. A repetição não é monotonia. É
uma forma de reconhecer a própria presença no mundo.

Há qualquer coisa de epicurista nessa liturgia. Não no sentido vulgar de excesso,
mas no sentido mais simples de prazer, amizade e ausência de perturbação. O café
nem sempre é extraordinário. O prazer está na companhia, na conversa que não
precisa chegar a uma conclusão e na sensação de que, por algumas horas,
ninguém está exigindo de nós uma versão mais eficiente de nós mesmos.

Nietzsche talvez desconfiasse de uma civilização que já não sabe fazer nada sem
transformar o gesto em rendimento. O café croata oferece uma resposta modesta a
essa doença moderna. Sentar sem produzir, conversar sem objetivo e deixar o
tempo passar sem pedir desculpas pode ser uma forma pequena de resistência. No
café, a pessoa deixa de ser apenas funcionária, consumidora, ou empresária. Volta
a ser alguém que olha, escuta e permanece.

Naturalmente, o ócio também tem seu preço. Os moradores reclamam do aumento
das tarifas, especialmente quando a inflação avança mais depressa que os salários.
Os mesmos lugares que suspendem o relógio lembram que o descanso pode se
tornar artigo de luxo. Ainda assim, muitos estabelecimentos preferem o dinheiro em
espécie. Na hora de pagar, a modernidade digital parece ficar do lado de fora.


A prova de que a regra se sustenta no dia a dia acontece mesmo à distância.
Quando trocamos mensagens, Karmen Penga, uma estudante de programação que
trouxe suas raízes da Dalmácia para a rotina universitária na capital, estava
justamente sentada em um café de Zagreb com as amigas. Sua definição talvez
seja a mais simples e, por isso mesmo, a mais precisa: “Isso significa muito. É uma
forma de relaxar e não fazer nada, observar as pessoas e passar um tempo com os
amigos. Tudo acontece em um café, antes e depois das aulas, antes e depois do
trabalho. É um ritual, caro, é verdade, mas que significa muito.”

No trânsito, Zagreb parece querer chegar antes de si mesma. No café, finalmente,
aceita permanecer onde está. Talvez essa seja sua forma mais cotidiana de
sabedoria. Há momentos em que a vida exige velocidade, mas nenhum destino
melhora por ser alcançado cinco minutos antes. Entre uma buzina e uma xícara
vazia, a cidade sustenta suas duas faces: o trânsito acelerado e o café demorado.

E aí, idemo na kavu? Agora você já sabe que, em Zagreb, a pergunta raramente é
sobre a bebida. É um convite para sair do fluxo, esperar, conversar e lembrar que a
vida também acontece quando ninguém está com pressa.

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