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Guardiãs da Trama”: o livro que reúne 25 histórias de mulheres croatas na América Latina

De Zagreb a São Paulo, “Guardiãs da Trama” transforma memórias familiares, tradições e experiências da diáspora croata em um registro coletivo que atravessa gerações e fronteiras.

Há histórias que permanecem dentro das famílias por décadas. Passam de avós para netas, aparecem em fotografias antigas, em receitas preparadas em dias especiais, em palavras preservadas de uma língua distante ou em costumes que continuam vivos mesmo quando já se está a milhares de quilômetros do país de origem.

É desse universo que nasce “Guardiãs da Trama”, título em português de Čuvarice niti, uma obra coletiva que reúne 25 relatos de mulheres de origem croata na América Latina. São 20 histórias escritas em espanhol e cinco em português, formando um mosaico de experiências sobre memória, identidade, imigração e transmissão cultural.

O livro propõe olhar para aquilo que acontece quando diferentes trajetórias familiares se encontram. Cada relato representa um fio e, juntos, esses fios formam a trama que dá nome à obra.

O projeto foi desenvolvido pela CroActivas (Rede de Mulheres da América Latina), iniciativa criada para aproximar mulheres croatas e descendentes na região e transformar a herança cultural em uma produção contemporânea. A coordenação do projeto ficou a cargo de Jelena Nadinić, enquanto Diana Arias participou da edição literária e assina o prólogo.

Um livro sobre aquilo que permanece

A força de “Guardiãs da Trama” está justamente na diversidade das histórias que reúne.

Os relatos percorrem temas como família, língua, culinária, fé, educação, trabalho, costumes e diferentes formas de preservar uma ligação com a Croácia. São aspectos que, isoladamente, podem parecer pequenos diante dos grandes acontecimentos históricos, mas que ganham outra dimensão quando observados pela perspectiva da vida cotidiana.

Uma receita transmitida pela família pode carregar uma história de imigração. Uma palavra em croata preservada dentro de casa pode representar uma ligação entre gerações. Uma associação comunitária pode se transformar em espaço de encontro para pessoas que compartilham uma mesma origem. Uma lembrança contada por uma avó pode se tornar, décadas depois, parte da identidade de uma nova geração.

É nesse território entre memória pessoal e patrimônio coletivo que o livro se constrói.

A “trama” não representa apenas uma metáfora literária. Ela traduz a própria estrutura da obra: histórias diferentes, escritas em diferentes países e idiomas, que passam a fazer sentido quando colocadas lado a lado.

Mulheres como guardiãs da memória

O protagonismo feminino é um dos elementos centrais da publicação.

“Guardiãs da Trama” reconhece o papel desempenhado por mulheres na preservação e transmissão da cultura croata em contextos de imigração e transformação. Muitas dessas práticas culturais não foram preservadas por meio de grandes instituições, mas dentro das casas e das famílias.

Foram mulheres que mantiveram receitas, histórias, tradições, celebrações, palavras e vínculos comunitários. Em muitos casos, fizeram isso de maneira silenciosa, como parte da rotina familiar.

O livro transforma essas experiências em memória registrada.

A proposta também é intergeracional. As histórias não tratam apenas do passado: mostram como a identidade croata continua sendo reinterpretada por descendentes que nasceram e cresceram na América Latina.

Por isso, a obra não apresenta uma ideia estática de identidade. A herança croata aparece como algo que viaja, muda de idioma, encontra novas culturas e ganha novos significados sem necessariamente perder sua ligação com a origem.

De Zagreb para a América Latina

A trajetória do livro também merece atenção.

O lançamento inaugural aconteceu em 5 de março de 2026, em Zagreb, na Fundação para a Emigração Croata, durante a programação relacionada à conferência “Legado en acción”. A escolha da capital croata para apresentar inicialmente uma obra construída a partir de histórias latino-americanas criou um movimento simbólico: as memórias produzidas pela diáspora retornaram ao país de origem antes de seguir novamente para as comunidades onde essas histórias foram vividas.

Depois de Zagreb, o livro iniciou sua circulação pela América Latina.

Montevidéu, no Uruguai, foi uma das primeiras paradas presenciais. A apresentação aconteceu no Hogar Croata de Montevideo e colocou a obra em contato direto com a comunidade local. O encontro teve também um caráter intergeracional, aproximando mulheres de diferentes idades em torno de histórias que atravessam famílias e gerações.

Na Argentina, o livro ganhou uma trajetória especialmente significativa. A obra foi apresentada na Feira Internacional do Livro de Buenos Aires e posteriormente passou por outras cidades, incluindo Córdoba, Mendoza, Tandil e Rosário.

Em Córdoba, por exemplo, a história de Nadya Carro mostrou de maneira concreta como uma memória familiar pode chegar às páginas de um livro. Seu relato nasceu das histórias que ouviu da avó e das tradições preservadas dentro da família. A apresentação transformou essa memória particular em parte de uma narrativa coletiva da diáspora.

Em Buenos Aires, a apresentação na Feira Internacional do Livro reforçou outra característica do projeto: a capacidade de reunir autoras, representantes institucionais e integrantes da comunidade croata em torno de uma mesma publicação. O encontro foi marcado justamente pela possibilidade de colocar frente a frente mulheres que haviam compartilhado suas histórias nas páginas do livro e que, em alguns casos, ainda não haviam se conhecido pessoalmente.

Um livro que sai das páginas

A jornada de “Guardiãs da Trama” não se limita às sessões de lançamento.

Em cada cidade, a publicação funciona como ponto de partida para conversas sobre imigração, identidade, família e pertencimento. O livro cria um espaço para que as autoras apresentem suas próprias histórias, mas também para que outras pessoas reconheçam suas experiências nas narrativas.

Esse talvez seja um dos aspectos mais interessantes do projeto.

Quando uma história familiar é publicada, ela deixa de ser exclusivamente privada. Passa a integrar um arquivo compartilhado e pode estimular outras famílias a recuperar fotografias, documentos, receitas, nomes, lembranças e relatos que permaneciam apenas na memória oral.

Assim, cada apresentação do livro acaba acrescentando uma nova camada à própria “trama”.

Em agosto, a circulação argentina chegou a Mendoza e Tandil, antes de seguir para Rosário. Em Tandil, a obra integrou a programação da Feira do Livro local e foi apresentada por autoras que também participaram diretamente da organização do encontro. Em Rosário, a apresentação aconteceu na Biblioteca Argentina Dr. Juan Álvarez, ampliando novamente o alcance da iniciativa dentro da comunidade croata argentina.

A chegada ao Brasil

A jornada latino-americana ganhou um capítulo especialmente importante com a chegada de “Guardiãs da Trama” ao Brasil.

Em 29 de agosto de 2026, o livro foi apresentado em São Paulo, na sede da Croatia Sacra Paulistana. A etapa brasileira tem um significado particular porque o português já faz parte da própria composição da obra: cinco dos 25 relatos foram escritos nesse idioma.

Além disso, quatro autoras brasileiras integram a publicação: Dubravka Sidonija Šuto, Sofia Hering Kvaček, Dafne Bilich Santiago Queiroz e Aligier dos Santos Pereira. O Brasil, portanto, não aparece apenas como mais uma parada no roteiro de divulgação. As experiências brasileiras estão incorporadas à própria construção do livro.

A chegada a São Paulo aproxima ainda mais a publicação das comunidades croatas de língua portuguesa e amplia a possibilidade de que essas histórias sejam conhecidas por um público que nem sempre tem acesso à produção cultural da diáspora em espanhol.

Uma memória que continua sendo construída

“Guardiãs da Trama” pode ser lido como um livro sobre a imigração croata na América Latina, mas sua proposta vai além.

A obra fala sobre como uma identidade sobrevive quando deixa seu território original.

Fala sobre mulheres que carregaram tradições para outros países, sobre famílias que transformaram seus costumes diante de novas culturas e sobre descendentes que procuram compreender de onde vieram para entender melhor quem são.

A publicação também mostra que a relação com a Croácia não precisa ser construída exclusivamente a partir da língua croata ou da experiência de viver no país. Para muitas famílias latino-americanas, essa conexão existe através de histórias, nomes, receitas, festas, associações, fotografias, objetos e lembranças.

É justamente por isso que a escolha de espanhol e português como idiomas da obra é tão significativa. São as línguas nas quais essas comunidades construíram parte de suas próprias histórias.

A viagem de “Guardiãs da Trama”, de Zagreb para Montevidéu, Buenos Aires, Córdoba, Mendoza, Tandil, Rosário, Santiago e São Paulo, transforma o lançamento em algo maior do que uma sequência de eventos. Ela cria uma circulação de memória entre diferentes comunidades latino-americanas.

E talvez seja esse o verdadeiro significado da trama: nenhuma dessas histórias existe completamente isolada.

Cada família guarda seus próprios fios. Cada geração acrescenta novos. Cada país modifica a maneira como eles são tecidos.

Quando essas histórias se encontram, surge uma memória coletiva capaz de atravessar fronteiras.

“Guardiãs da Trama” registra justamente esse encontro e transforma as mulheres que preservaram essas histórias em protagonistas de uma narrativa que continua sendo construída na América Latina.

Onde encontrar o livro

No Brasil, “Guardiãs da Trama” tem o valor de R$ 80. Para adquirir um exemplar, os interessados podem entrar em contato pelo WhatsApp com Virgínia, pelo número +55 11 97295-1565. O contato deve ser feito diretamente para combinar a compra e os detalhes da entrega, que serão definidos conforme a localização do comprador. 

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